Textos

14/05/2025
14:35
Bologna, Italia
14/05/2025
14:35
Bologna, Italia

Proibida a entrada de crianças

Proibido entrar crianças

Estou grávida do meu segundo filho, moro em Bologna e um dos meus propósitos de vida é, a partir de uma tradição gastronômica riquíssima e deliciosa como a italiana, alimentar (com comida e informação) o maior número de pessoas possível.

Adoro comer bem e sempre – sempre – levei meu filho (e meu cachorro) a quase todos os restaurantes onde fui, independentemente do número de estrelas Michelin.

Como só as crianças sabem fazer, meu filho aprendeu muito rapidamente a reconhecer esse tipo de experiência e saber como se comportar. Até começou a se divertir genuinamente ao experimentar gostos, texturas e sensações inusitadas. Uma ótima companhia, enfim.

Bologna é um bom ponto de partida para isso: uma cidade que tem tanto orgulho de suas raízes gastronômicas quanto de seu time de futebol que foi à Champions League o ano passado e tingiu todas as ruas de azul e vermelho.

Uma das instituições do mundo enogastronômico daqui é a Osteria del Sole. Até já falei dela: um lugar, dos mais antigos da Itália, onde se entra para tomar vinho, sendo possível levar de fora qualquer comida para acompanhar. Ideia legal, tradição arraigada, local sempre cheio…

Eis que, no começo deste mês, surge um adesivo na porta do local: um desenho de uma mãe com um carrinho de bebê dentro de um círculo vermelho e uma barra que o atravessa. “Não aconselhável a menores”.

A polêmica imediatamente se incendiou, os proprietários, ao invés de simplesmente amenizarem o tom, dizendo que se trata de um bar onde o foco é o consumo de bebidas alcoólicas, tentaram justificar de um jeito torto e ainda mais discutível: as crianças italianas são mal educadas, os pais não ensinam seus pequenos a se comportarem, ali houve recentes experiências negativas com crianças e decidiu-se tomar essa decisão.

Posso até imaginar as cenas hediondas e traumáticas de crianças falando alto e correndo (em um lugar, repito, completamente informal onde as pessoas bebem em pé e comem sanduíche de mortadela comprado no açougue da frente). O horror! Oh, o horror!

Criancas e restaurantes

A que ponto chegamos? Uma sociedade onde a exclusão é o caminho para nos refugiarmos da intolerância pelo que nos incomoda só porque não sabemos mais lidar com incômodos. Tudo precisa ser homogeneizado, ultraprocessado, colorido, “on demand“, se não a gente não aguenta.

Em italiano, o setor que compreende restaurantes e hotéis é chamado de “ospitalità” (em português, “hospitalidade”). A partir do momento em que os lugares que deveriam receber e acolher começam a excluir, a priori, crianças porque são crianças – e agem como tal – começo a pensar que o problema seja bem mais profundo.

E, no caso específico, extremamente contraprodutivo: se crianças não aprenderem a se comportar em restaurantes quando pequenas; a experimentar novos sabores, conviver com outras pessoas em contextos diferentes, quando irão aprender? O próximo passo será banir adultos mal educados.